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DEUS CASTIGA?
"Aquele que ama a correção,
ama a ciência, mas o que detesta a reprimenda é um insensato"(Prov.
12, 1)
Uma das
tolices mais irritantes que se ouvem hoje em diversos ambientes
pentecostais e progressistas é que Deus não castiga porque Deus é amor.
Que coisa mais bonita! Que coisa mais melosa! Que coisa mais cretina!
Outra coisa
ridícula e estulta que se
ouve com freqüência, vinda
dos arraiais progressistas, é que o Deus do Antigo Testamento é um Deus
diferente do Novo Testamento.
O mistério
de Deus excede a razão humana, mas não a contradiz. Quando crê em Deus,
o homem não descarta o uso
da razão; pelo contrário, esta lhe diz que é razoável crer, que há
motivos para crer. A fé é uma luz que aperfeiçoa a razão. Ademais,
seja dito de passagem, a existência de Deus não é artigo de fé, mas
dado da razão. Se alguém não alcança a Deus pela razão, nada
impede que nele creia movido pela graça e tocado ao menos por
argumentos de conveniência.
Basta usar
um pouco a inteligência para concluir que não tem cabimento afirmar a
existência de Deus criador do homem livre e racional, dotado de alma
espiritual e imortal e, ao mesmo tempo, dizer que Deus não pune ninguém.
Como ensina
a Dogmática, o conhecimento que temos de Deus é um conhecimento analógico.
Quer dizer, por comparação com as obras criadas, podemos conhecer a Deus
e seus atributos, não em sua forma própria, mas de forma estranha, tal
como moldada nas criaturas. (Cf. BARTMANN, Teologia
Dogmática, v. p. 146, São Paulo, 1962). Isto nos permite evitar
tanto o erro do antropomorfismo quanto uma total desantropomorfização
incompatível com o dado da revelação e o mistério da Encarnação do
Verbo.
Pois bem,
se Deus é pai e todo pai bom e educador castiga e corrige seus filhos
para o seu bem, como não castigará Deus o homem, seu filho, para seu bem
e salvação? A Sagrada Escritura contém várias passagens com essa
doutrina. Por exemplo, o Apóstolo São Paulo, citando Provérbios, diz na
Epístola aos Hebreus: “Filho meu, não desprezes a correção do
Senhor. Não desanimes, quando repreendido por ele; pois o Senhor corrige
a quem ama e castiga todo aquele que reconhece por seu filho (Prov. 3,
11s.).”
Por outro
lado, cumpre lembrar o que diz Santo Tomás em seu comentário à Epístola
de São Paulo aos Romanos. Explicando as maldições que há na Sagrada
Escritura, diz o Angélico que se devem julgar as coisas não segundo a
sua matéria mas segundo sua forma (Cf. Super
Epistolas, Ad Romanos, c. XII, lectio III). De modo que se pode dizer
que o mal, enquanto castigo, não tem razão de mal mas de bem.
Do
esquecimento dessa verdade decorre hoje uma nova religiosidade que quer um
cristianismo sem cruz, sem sofrimento. É por isso que se vê tanto abuso
na pratica das chamadas missas de “cura e libertação”. Já não se
aceita o sofrimento como uma prova permitida ou querida por Deus, mas
sempre como um mal vindo do diabo.
Hoje há
uma verdadeira heresia em torno da revelação cristã de que Deus é
amor. O amor pressupõe a inteligência que ilumina a vontade com o bem a
ser amado. Deus ama porque antes é razão. Deus cria livremente, porque
antes é inteligente. Ama tudo aquilo que criou com medida, número e peso
(Sab. 11, 21). Sua obra, antes de ser reflexo da sua bondade, é reflexo
da sua inteligência. Na
mente divina existe, desde toda eternidade, o projeto da criação, que
tem início no tempo, como manifestação da sua bondade e onipotência. E
seu amor – também nos ensina a teologia dogmática – não é expressão
da sua vontade mas do seu ser.
A criação
divina constitui uma ordem. Essa ordem expressa, sobretudo, inteligência
e sabedoria. Opondo-se a todo bom senso, a
filosofia voluntarista nega
a inteligência anterior à vontade em Deus, o que tem conseqüências
desastrosas em vários
campos.
Na
perspectiva voluntarista, como todas as coisas dependem exclusivamente da
vontade divina sem nexo com a
sua inteligência, não só as ações humanas tendem a ser arbitrárias,
mas também a própria idéia que se faz do juízo divino é uma idéia
ilusória, reduzindo-se a um juízo destituído de qualquer elemento
racional. Deus poderia fazer um Decálogo ao contrário e seria bom,
porque procedente da sua vontade. Ora amor sem razão é um absurdo.
Os frutos
amargos de todas essas distorções teológicas são perceptíveis. Um
deles, parece-me, é a decadência da atual educação. A educação –
ou deseducação – que se dá hoje às crianças e aos jovens, é uma
satisfação de caprichos da vontade ou vaidade dos pais e dos filhos. Não
visa mais à perfeição e aquisição das virtudes conforme o
conhecimento da verdade.
O deus
caprichoso, que muda de feição do Antigo para o Novo Testamento, da
dureza para a moleza, de acordo com a nova exegese pentecostal,inspira o
relaxamento da nova educação.
Não é em
vão que a Igreja tradicionalmente procurou guiar e mediar a leitura da
Sagrada Escritura para evitar erros e subjetivismos na sua interpretação.
Não são dois deuses opostos o do Antigo e do Novo Testamento. Mas o
mesmo Deus, eterno e imutável que no tempo age como um pai ou pedagogo,
adaptando-se às condições dos seus filhos. Nosso Senhor não veio
abolir a lei mas completá-la e aperfeiçoá-la, o que significa torná-la
ainda mais rigorosa: “Não cometerás adultério. Eu, porém, vos digo:
Todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher já adulterou
com ela em seu coração” (Mt. 5, 27-29).
Como bem
observa Santo Agostinho, o Antigo Testamento não ameaça com a pena
eterna do inferno, mas o Novo Testamento a comina em várias passagens:
“Nosso Senhor Jesus Cristo quis que fosse mais suave a disciplina uma
vez revelado o Novo Testamento. Todavia, é mais atroz a ameaça do
inferno, a qual não lemos entre as ameaças de Deus no governo daqueles
tempos.” (Super Psalmos, Ps. 105).
Quando diz que a disciplina do Novo Testamento é mais suave, o santo
doutor refere-se ao conteúdo do salmo 105 que recorda os castigos
temporais impostos ao povo hebreu por causa da sua rebeldia e murmuração.
Resumindo
essa doutrina em termos teológicos precisos, diz Renié, em seu Manuel
d’Ecriture Sainte, : “Sem dúvida, a lei mosaica é inferior à
lei evangélica: é que Deus, como um sábio pedagogo, conduziu a
humanidade indo do menos perfeito ao mais perfeito. Jesus não ab-rogará
a lei de Moisés, transforma-la-á, aperfeiçoa-la-á (Mt. 5,17). Se por
si mesma a lei do Sinai não produzia a graça na alma e só conferia uma
purificação exterior, ela contribuía no entanto para a justificação e
por seus ritos expressivos reavivava a fé no Messias, de quem vinha a
salvação verdadeira (...). Quanto à sua excelência, ela resulta da sua
própria perenidade, porquanto ela está ainda na base das nossas civilizações
modernas.” (Renié, Emmanuel Vitte, Paris, 1941).
Para
remate dessas reflexões, diria apenas que uma das providências urgentes
a serem tomadas para impedir dissolução da doutrina sagrada, a redução
do catolicismo à religião sem dogmas, a um vago, indefinido (e cretino)
sentimento de amor é, sem dúvida, a Igreja voltar a ser mais vigilante
sobre a leitura da Sagrada Escritura. Esta tem de ser precedida por
criterioso estudo do catecismo, mediada pela tradição, pelo magistério
e pela liturgia da Igreja. Tudo isto implica uma série de medidas
concretas. A reforma litúrgica, inflacionando a leitura de textos bíblicos
nas missas, inclusive com passagens de difícil interpretação, criou uma
situação embaraçosa segundo análise do erudito cardeal Stickler. Aguçou
um interesse entre os leigos, para não dizer uma curiosidade, pelas
Sagradas Escrituras, que envolve perigos graves para a integridade da fé
católica. Além disso, há um incontestável despreparo do clero formado
após o Vaticano II – prejudicado pela degradação dos estudos na
maioria dos seminários – para explicar aos fiéis as passagens da
Sagrada Escritura lidas na santa missa. Se por um lado a reforma litúrgica
multiplicou o número de leituras bíblicas, por outro lado censurou os
chamados salmos imprecatórios, explanados de forma admirável por Santo
Agostinho. Como se sabe, referidos salmos em linguagem contundente
profetizam terríveis desgraças que cairão sobre o pecador impenitente
como se fossem votos. Empregados na liturgia tradicional, seja na missa na
forma de intróito ou no breviário como antífona, esses salmos recordam
ao cristão a justiça divina. Certamente, não foi inócua sua supressão.
Lex orandi, lex credendi. Se uma verdade de fé deixa de ser exposta
pela liturgia, com o tempo será negada ou esquecida. Por exemplo, a tradução
mutilada do cânon romano, suprimindo a expressão “eterna danação”
é uma das causas de hoje ser negado o inferno. Não é à toa que o
cardeal Ratzinger disse que a reforma litúrgica é uma das causas da
crise da Igreja em nossos dias.
Anápolis,
28 de outubro de 2008
Festa de São Simão e São Judas Tadeu, Apóstolos
Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa
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