O
Domingo
A
fidelidade na assistência à Missa aos domingos e festas de preceito
decorre do 3º Mandamento da Lei de Deus. Caracteriza a vida religiosa dos
indivíduos e da paróquia na qual eles se encontram inseridos. Sem dúvida,
os templos cheios nas celebrações eucarísticas do Dia do Senhor – o
domingo – não significam necessariamente vigor e êxito nas atividades
pastorais. Costumo perguntar, nessas oportunidades, pelos que se deixam
ficar à margem da comunidade orante. O zelo pelo bem espiritual dos irmãos
ausentes nos constrange a trabalhar para trazê-los ao redil. Essa atitude
revela o espírito missionário, elemento essencial do cristianismo.
O índice
dos que obedecem a Deus, indo à Missa, e dos refratários à ordem do
Senhor é um fator indicativo de grande relevância para uma avaliação
objetiva da vitalidade cristã. Não se trata de algo facultativo para o
católico. A lei eclesiástica, referindo-se aos domingos e dias de
preceito, fundamentada no preceito divino, é clara: "No domingo e
nos outros dias festivos de preceito os fiéis têm obrigação de
participar na Missa, abstenham-se ainda daqueles trabalhos e negócios que
impeçam o culto a prestar a Deus, a alegria própria do dia do Senhor, ou
o devido repouso do espírito e do corpo" (Código de Direito Canônico,
cânon 1247). E o Catecismo da Igreja Católica (nº 2181): "Aqueles
que deliberadamente faltam a essa obrigação cometem pecado grave".
Em nossos
dias, pastores, abandonando sua missão de guiar o rebanho segundo o
Magistério, favorecem a infiltração de erros oriundos de correntes de
idéias falsas em voga. Ensinam que a assistência à Missa de preceito
fica na dependência da vontade de cada um. Outro erro bastante comum é
dizer que é permitido substituir a missa dominical por qualquer outro dia
da semana. É o mal que penetra na grei, facilitado exatamente por aqueles
que deveriam combatê-lo. São falsos guias. Quem os segue também não
está isento de culpa, pois, entre eles e a doutrina da Igreja, preferem o
que lhes é mais cômodo. Fecham os ouvidos à palavra do Mestre.
"Entrai pela porta estreita porque larga é a porta e espaçoso o
caminho que conduz à perdição" (Mt 7,13).
E quando
alguém se encontra impedido, por falta de ministro ou outra grave causa,
de participar do Santo Sacrifício da Missa, é aconselhada a prática de
atos piedosos, condizentes com a santificação do domingo. Diz o
Catecismo da Igreja Católica (nº 2.183, citando o CDC, cân. 248 par.2º):
"Recomenda-se vivamente que os fiéis participem da liturgia da
Palavra, se houver, na igreja paroquial ou em outro lugar sagrado (...) ou
então se dediquem à oração por tempo conveniente". No entanto,
convém recordar que esta celebração da Palavra ou atos assemelhados não
substitui a Santa Missa e a obrigação permanece inalterada.
Diante
dos fiéis que facilmente se dispensam do Santo Sacrifício nos dias de
preceito, parece-me oportuno recordar o procedimento dos primeiros cristãos
nessa matéria. O modo de agir desses nossos irmãos que nos precederam na
prática religiosa e na obediência a esse mandamento de Deus nos orienta
e fortalece. Vejamos o que nos relata a Didascália dos Apóstolos, 13:
"Ordena e persuade o povo para ser (...) fiel no reunir-se, a fim de
que ninguém, ausentando-se, diminua a Igreja de um membro do Corpo Místico
de Cristo (...) Não desprezeis a vós mesmos nem priveis o Salvador de um
seu membro, não destruais e não desperdiceis o seu corpo". A freqüência
à Missa aos domingos tem suas origens na Idade Apostólica. São muitas e
belas as notícias a esse respeito. Nos séculos seguintes, o Concílio de
Paris, no ano 829, resume bem a observância desse compromisso por parte
de cada fiel naquele período da história: "Não concorda com a
autoridade divina, segundo o que está expresso na tradição dos Santos
Padres e o estabelece a autoridade da Igreja, o cristão que não
santifica com profunda reverência o dia do Senhor, no qual o Autor da
vida ressuscitou dos mortos".
A
gravidade no cumprimento desse dever tem suas raízes no Antigo
Testamento. São muitas as referências na Sagrada Escritura. Tomemos, por
exemplo, a resposta do Profeta Ezequiel (cap.20) aos anciãos de Israel:
"Eu sou Javé vosso Deus. Mas eles revoltaram-se contra mim (...)
profanaram também meus sábados. Resolvi, então, despejar sobre eles
minha ira, para exterminá-los no deserto". As tábuas da Lei e as inúmeras
citações sobre a responsabilidade iluminam a consciência dos cristãos
na obediência a esse preceito.
Na
verdade, o domingo cristão não é a continuação do sábado hebraico.
Para este, o fato central é a Aliança de Deus com o Povo eleito:
"Lembra-te do dia do sábado para santificá-lo" (Êxodo
20,8-10). Para nós, trata-se da celebração da Nova Aliança que adquire
um significado teológico e moral próprios. Diz o Código do Direito Canônico
(Cânon 1246): "O Domingo, dia em que por tradição apostólica se
celebra o Mistério Pascal, deve ser guardado em toda a Igreja como o dia
de festa por excelência". No entanto, em um e outro, Deus é o
centro da atividade humana que reserva para si um dia. Nele recebe da
criatura o louvor, proporciona um tempo para os deveres religiosos e também
para o repouso. Ao observar o Dia do Senhor, o homem reconhece sua dependência
do Altíssimo. O ambiente secularizado que nos cerca leva ao esquecimento
dessa verdade e, em decorrência, ao desrespeito do Mandamento. O
entibiamento da vida religiosa, seqüela dessa atitude, acarreta graves
danos espirituais e materiais. A alma necessita de práticas de piedade
que marcam o domingo. O descanso semanal, não em qualquer dia, mas no
domingo, é uma exigência do corpo e do espírito, possibilita a convivência
familiar. E esta é de fundamental importância em um lar, inclusive na
educação dos filhos e no relacionamento do casal.
A
santificação do Dia do Senhor é um fator valioso para o aperfeiçoamento
espiritual dos indivíduos e bem estar da sociedade.
Cardeal
Dom Eugênio Sales