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Missa de Cura e Libertação???
Esta pergunta tem me levado a refletir muito nos últimos
tempos. Por isto resolvi colocar por escrito o que penso sobre o tema, a
fim de provocar uma conversa e ajudar no encaminhamento de tomada de posição
da Igreja no Brasil.
Tenho afirmado a quem me fala destas "missas de
cura e de libertação" que elas não existem, pois na verdade toda
missa, toda Eucaristia é curadora, é libertadora, afinal de contas
Jesus, o Libertador, está presente, vivo, ressuscitado em todas as
celebrações da Eucaristia, onde quer que ela seja celebrada, debaixo de
uma árvore, numa simples capela em uma favela ou na Catedral de São
Pedro em Roma. Nem tão pouco Jesus se faz mais presente e cura, liberta,
de modo especial quando o presidente da celebração é este ou aquele
padre. Todos os padres são iguais no "produzir"
sacramentalmente o Cristo presente na Eucaristia. Aprendi da Igreja,
quando estudei Teologia, que não existe diferença entre uma Eucaristia e
outra. Será que a doutrina da Igreja sobre a Eucaristia mudou e eu não
me atualizei? Creio que não mudou! Sendo assim, afirmo com muita convicção
que padres que celebram e promovem as "missas de cura e libertação",
não estão, infelizmente, agindo biblicamente, teologicamente,
eclesialmente e liturgicamente corretos.
Os textos bíblicos que falam da instituição da
Eucaristia não falam de que uma Eucaristia seria de cura e libertação e
outra não. Simplesmente Jesus disse: "Tomem e comam, isto é o meu
corpo. Bebam dele todos, pois isto é o meu sangue" (Mt 26, 26-28).
Jesus não fez distinção de quem estaria presidindo a celebração da
Eucaristia e Jesus não falou de que a Eucaristia iria ser celebrada em
algum lugar especial para curar as pessoas. Jesus apenas disse: "Façam
isto em memória de mim" (Lc 22, 19). Então, por que alguns padres e
bispos inventaram a "missa de cura e libertação"?
Isto na verdade não existe, podemos afirmar que se
trata de uma forma de exploração da fé do povo, especialmente dos que
sofrem. Faz-me lembrar o episódio do Templo de Jerusalém: Jesus fazendo
um chicote e expulsando os vendilhões (cf. Jo 2,14-17). Jesus disse:
"Tirem isto daqui!" (v. 16). Podemos imaginar Jesus dizendo a
quem anda usando a Eucaristia para promover as "missas de cura e
libertação": "Parem de enganar o povo!" E tome chicote!
O Concílio Vaticano II assim nos fala sobre a
Eucaristia: "O nosso Salvador instituiu na última ceia, na noite em
que foi entregue, o sacrifício eucarístico do seu corpo e do seu sangue
para perpetuar no decorrer dos séculos, até ele voltar, o sacrifício da
cruz, e para confiar assim à Igreja, sua esposa amada, o memorial da sua
morte e ressurreição: sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo
de caridade, banquete pascal em que se recebe Cristo, a alma se enche de
graça e nos é dado o penhor da glória futura" (Sacrosanctum
Concilium, 47). O Concílio fala de que a Eucaristia perpetua o sacrifício
da cruz, portanto, da doação da vida de Jesus por nós. E não fala de
celebração onde curas irão ocorrer. O Concílio fala, também, da
Eucaristia como sinal de unidade, o que entra em contradição com o que
vem se propagando de que Jesus vem curar e libertar em algumas missas e em
outras não, rompendo assim com a unidade e universalidade da presença de
Cristo na Igreja, onde quer que ela esteja. Estas "missas de cura e
libertação" criam divisão entre nós: uns padres são
privilegiados por Cristo, com curas nas missas e outros padres são
menosprezados, já que em suas missas Cristo não cura. Eu fico com a
doutrina do Concílio Vaticano II e não com a invencionice de alguns irmãos
presbíteros.
O Direito Canônico quando legisla sobre a Eucaristia não
fala de "missa de cura e libertação" e nem de diferença entre
um lugar e outro e nem fala da existência de graduação entre os presbíteros
que presidem a Eucaristia, onde Jesus estaria curando em algumas celebrações
da Eucaristia e em outras não (cf. Cânones 897 a 958). Assim está
escrito no Cânon 899: "A celebração eucarística é a ação do próprio
Cristo e da Igreja, na qual, pelo ministério do sacerdote, o Cristo
Senhor, presente sob as espécies de pão e vinho, se oferece a Deus Pai e
se dá como alimento espiritual aos fiéis unidos à sua oblação".
Quero ressaltar a afirmativa "ação do próprio Cristo". Seja
onde for e seja quem for o presidente, a celebração da Eucaristia é
"ação do próprio Cristo". Se é assim, porque uma missa será
de "cura e libertação" e outra não? Haverá dois Cristos? Um
que cura e outro não? Outra afirmativa do Cânon 899 é que o Cristo
"se oferece a Deus Pai e se dá como alimento espiritual aos fiéis".
O Cânon não fala de que quem frequenta uma "missa de cura e libertação"
receberá uma graça especial de Cristo. O Cânon fala de "alimento
espiritual aos fiéis". "Alimento" e não cura. "Aos
fiéis" e não para alguns fiéis privilegiados que frequentam uma
"missa de cura e libertação". "Aos fiéis",
significa dizer todos os fiéis. Lembro-me aqui das palavras de Pedro:
"Estou compreendendo que Deus não faz diferença entre as
pessoas" (At 10, 34). Se Deus não faz, somos nós a Igreja, ou
melhor, alguns padres que vão fazer? Falar de que Jesus cura em uma
determinada missa e em outra não, não é fazer diferença entre as
pessoas? Eu prefiro ficar com Pedro: "Estou compreendendo que Deus não
faz diferença entre as pessoas".
Curar é ação divina. Deus cura sempre. Cura
ordinariamente pelo uso da medicina e cura extraordinariamente, no que
chamamos de milagre. O milagre vem da fé da pessoa e do poder e do querer
de Deus, assim nos ensina Jesus: "Vocês acreditam que eu possa fazer
isso? Eles responderam: ‘Sim, Senhor’. Então Jesus tocou os olhos
deles, dizendo: ‘Que aconteça conforme vocês acreditaram’ E os olhos
deles se abriram" (Mt 9, 28-29). Outro texto: "Jesus ficou
admirado e disse aos que o seguiam: ‘Eu garanto a vocês: nunca
encontrei uma fé igual a essa em ninguém de Israel!’. (...) Então
Jesus disse ao oficial: ‘Vá, e seja feito conforme você
acreditou’" (Mt 8, 10.13). Poderíamos citar tantas outras
passagens dos evangelhos, mas estas duas citações bastam para confirmar
que o milagre depende tão somente da fé da pessoa que pede a graça
especial e de Deus que aceita realizar o que a pessoa crente pede,
independente do lugar e de ter ou não algum intermediário. Creio que
seja uma ofensa a Deus, é usar o nome d’Ele em vão (cf. Ex 20, 7),
determinar que um milagre somente acontece se a pessoa for participar de
uma "missa de cura e libertação", celebrada em um determinado
lugar e por um determinado presbítero.
Chego mesmo a pensar que este tipo de celebração é
uma forma de mentir e enganar o povo, transferindo para o nível do
milagre, aquilo que deveria ser conquista da cidadania, tornando-se uma
fuga do compromisso social da fé. Jesus nos ensina: "Vocês é que têm
de lhes dar de comer" (Mc 6, 37). Não devemos transferir para Deus o
que podemos e devemos fazer. Tiago nos alerta: "Religião pura e sem
mancha diante de Deus, nosso Pai, é esta: socorrer os órfãos e as viúvas
em aflição, e manter-se livre da corrupção do mundo" (1, 27).
Religião verdadeira é aquela que serve e liberta aos pobres e não
aquela que explora e engana aos pobres; religião verdadeira é aquela que
se mantém "livre da corrupção do mundo" e não aquela que usa
das mesmas artimanhas do mundo para garantir a conquista de mais um fiel
para a Igreja. Faz-me lembrar o ensinamento da CNBB nas Diretrizes Gerais
da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2008-2010 no nº 178: "O
compromisso social tem sua raiz na própria fé; deve ser manifestado por
toda a comunidade cristã, e não apenas por algum grupo ou pastoral
social; uma comunidade insensível às necessidades dos irmãos e à luta
para vencer as injustiças celebra indignamente a liturgia". Existe
algum compromisso social de luta para vencer as injustiças nas celebrações
das "missas de cura e libertação"? Se sim, qual, como e onde?
Se não, celebra-se "indignamente a liturgia". Palavras da CNBB!
Nas "Orientações pastorais sobre a Renovação
Carismática Católica" é dito que se devia evitar "alimentar
um clima de exaltação da emoção e do sentimento, que enfatiza apenas a
dimensão subjetiva da experiência de fé" (Documentos da CNBB 53, nº
49). E diz também: "A fé não pode ser reduzida a uma busca de
satisfação de exigências íntimas e de resposta às necessidades
imediatas"(nº 47). Mais uma recomendação: "Ao implorar a
cura, nos encontros da RCC ou em outras celebrações, não se adote
qualquer atitude que possa resvalar para um espírito milagreiro e mágico,
estranho à prática da Igreja Católica" (nº 59). Nas chamadas
"missas de cura e libertação" estão acontecendo tudo isto:
exaltação da emoção e do sentimento, ênfase na dimensão subjetiva da
fé, satisfação de exigências íntimas, respostas às necessidades
imediatas, espírito milagreiro e mágico. Tudo que a CNBB recomendou
evitar, está acontecendo nas "missas de cura e libertação". E
aí? Ninguém vai tomar nenhuma providência? A CNBB vai ficar
desmoralizada, vai perder sua força como orientadora da ação
evangelizadora na Igreja do Brasil? Cada movimento, cada pastoral, cada
presbítero, cada bispo, cada consagrado, cada leigo vai fazer o que quer
e como quer? Vamos sepultar de vez as diretrizes e orientações da CNBB?
Recentemente uma Religiosa me dizia que o pároco da
cidade onde ela mora, apoiado pelo bispo, resolveu celebrar esta
"missa de cura e libertação". Questionado por ela, justificou
tal tipo de celebração dizendo que por meio das "missas de cura e
libertação" as pessoas, em busca de milagres, viriam à Igreja e
poderiam assim ouvir a Palavra de Deus e serem catequizadas. Eu disse à
Irmã: será? E repito: será que quem vai a estas "missas de cura e
libertação", ouve mesmo aquilo que a Igreja tem a dizer, ou vão
apenas porque esperam receber um milagre?
Finalizo perguntando: onde é que estes meus irmãos na
fé e no ministério ordenado se fundamentam para celebrar e apoiar estas
"missas de cura e libertação" em suas paróquias e dioceses?
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